[ARTIGO]: Liquidação da indústria e recolonização do Brasil

Por José Álvaro de Lima Cardoso, economista do DIEESE/SC

Enquanto nuvens carregadas se formam no horizonte, ameaçando uma tempestade financeira que pode ser mais grave do que a de 2008, o Brasil amarga uma crise gravíssima, com um golpe em pleno andamento, e o pior governo já registrado na história do país.

Todas as medidas encaminhadas pelo governo aumentam a exposição do Brasil aos choques que ameaçam a economia mundial, previstos por especialistas em economia mundial. Dezenas de medidas que acabaram (ou reduziram), com direitos sociais e trabalhistas, entregando as estatais para os abutres, volta da fome, todo esse conjunto, fragiliza ainda mais o Brasil perante eventuais choques internacionais da economia.

O Brasil, depois de muitas décadas no grupo dos dez maiores países industriais do mundo, corre o risco de perder essa condição, segundo avaliação do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, IEDI. Entre os subdesenvolvidos o Brasil há muitos anos ostenta a condição de ser o país mais industrializado.

Mas o golpe de 2016, foi desferido contra todos os interesses nacionais, inclusive contra o direito fundamental do país dispor de uma indústria nacional forte. O Brasil ainda não recuperou o patamar industrial que tinha antes da recessão de 2015/2016. A indústria, que vem perdendo espaço desde a década de 1980, tem atualmente peso de 11% na composição do PIB, percentual que deverá recuar em 2019.

O país atualmente tem um dos piores desempenhos de crescimento na indústria em toda América Latina, região que já vem crescendo menos que a média mundial.

Não há como a indústria crescer num quadro de extraordinário decrescimento econômico, que combina um violento ataque ao mundo do trabalho, com a deterioração rápida de todos os indicadores de distribuição de renda. Se o índice de Gini aumenta, se o produto interno cai e o PIB per capita recua em média 1,5% ao ano desde 2014, é impossível a indústria crescer.

O mercado consumidor interno, por sua vez, se restringe continuamente, pois, desde 2014 a taxa de pobreza cresce ao ritmo de 10,4% ao ano e a taxa de desemprego aumenta 20,1% ao ano, na média do período 2015/2019. A saída pela via das exportações, por outro lado, é dificultada porque a conjuntura mundial também é de desaceleração.

Dada a importância da indústria para o desenvolvimento nacional e a complexidade do tema, o país deveria ter estratégias de longo prazo, envolvendo todos os segmentos importantes da sociedade, para que a indústria recuperasse dinamismo e importância na produção de riqueza. Vale listar alguns excelentes motivos para a defesa do setor industrial do país:
1º) Não há registro na história do país que tenha chegado ao desenvolvimento econômico e social, sem uma generalizada industrialização e um forte e ativo Estado Nacional. Mesmo economias que utilizaram mais as exportações de produtos primários para elevar a sua renda per capita (como Austrália e Canadá), antes atravessaram períodos de elevada diversificação industrial, elemento essencial das suas estratégias de desenvolvimento;
2º) Existe uma relação empírica entre o grau de industrialização e a renda per capita, tanto nos países ricos, quanto nos subdesenvolvidos;
3º) Há uma associação estreita entre o crescimento do PIB e o crescimento da indústria manufatureira. A dinâmica da economia brasileira nos últimos anos, mostra o fenômeno: o PIB apresentou queda, em boa parte, porque a indústria de transformação recuou drasticamente;
4º) A produtividade é mais dinâmica no setor industrial do que nos demais setores da economia, é o setor industrial que puxa o crescimento de produtividade da economia;
5º) O avanço tecnológico que se concentra no setor manufatureiro tende a se difundir para outros setores econômicos, como o de serviços ou mesmo a agricultura. Os bens com maior valor adicionado produzidos pela indústria incorporam e disseminam maior progresso técnico para o restante da economia.

Nos países desenvolvidos, que em alguns casos se desindustrializaram, a indústria nacional já cumpriu o seu papel no desenvolvimento econômico, colocando a renda per capita da população em elevado patamar. Ao se desindustrializar, o Brasil está perdendo a sua maior conquista econômica do século XX.

Entre 1930 e 1980, a economia brasileira cresceu a elevadas taxas (6,8%, entre 1932-1980) baseado no chamado “processo de substituição de importações”, com fortes incentivos estatais à industrialização através das políticas cambial, tarifária e fiscal.

Caberia neste momento um vigoroso projeto nacional, que possibilitasse a retomada da indústria do país. Ou seja, seria fundamental realizar exatamente o oposto do que está fazendo o governo de Bolsonaro, que está destruindo as ferramentas de execução de política econômica. O conjunto de medidas encaminhadas ou anunciadas pelo governo tendem a debilitar ainda mais a indústria. Venda de estatais estratégicas sem política de valorização dos ativos, entrega do pré-sal e de outros recursos naturais, achatamento do mercado consumidor interno via arrocho salarial, regressão em décadas na regulamentação do trabalho, esvaziamento do BRICS, fragilização do Mercosul, tudo isso enfraquece ou dificulta muito a possibilidade de crescimento de uma indústria robusta no país.

Mas não devemos pecar pela ingenuidade. Dado o conjunto da obra não é difícil concluir que a destruição da indústria e a transformação do Brasil num fornecedor de commodities baratas para os países centrais, não são efeitos colaterais, ou “erros”, da política do golpe, e sim partes constitutivas de um projeto de recolonização do Brasil.

[ARTIGO]: Qual o custo do golpe de Estado que vitimou o Brasil?

Por José Álvaro de Lima Cardoso, economista do DIEESE

Consta que o governo Bolsonaro, para comprar o apoio para a aprovação da contrarreforma da Previdência (PEC 6/2019), está liberando R$ 1 bilhão em emendas parlamentares, já divulgadas pelo governo no Diário Oficial de segunda-feira (8/07). Segundo as denúncias as liberações estão ocorrendo, inclusive, de forma ilegal e sem lastro financeiro para sua realização. A proposta de contrarreforma da previdência só poderia, mesmo, ser aprovada com grossa corrupção. Por mais que tentem enganar a população, a destruição dos fundamentos atuais da Seguridade Social, o fim das contribuições patronais, a redução do valor das aposentadorias e pensões, o fim do pacto de solidariedade entre gerações, são de fato propostas muito impopulares, e só poderiam mesmo ser aprovadas com compra de votos.
As impressionantes denúncias que vêm sendo feitas pelo site The Intercept, na chamada operação Vaza Jato, confirmam o que já se sabia desde 2014. Mas que agora são comprovadas pelas “confissões” dos autores da Lava Jato, que aparecem nos materiais divulgados. No processo de construção do golpe no Brasil, a partir mais ou menos de 2013, foi fomentado no meio do povo o complexo de vira-latas, e se depreciou de forma sistemática tudo que poderia significar orgulho ou amor verdadeiro pelo Brasil. A campanha foi tão eficiente, que idiotas chegaram a sair nas manifestações pró impeachment vestidos com as cores ou enrolados na bandeira dos EUA (até hoje isso acontece, aliás). Somente um processo sofisticado de guerra hibrida poderia possibilitar o apoio a uma operação antinacional como a Lava Jato, articulada para quebrar a Petrobrás e seu entorno, e que desde 2015, gerou bilhões de reais de prejuízos para a economia, provocando a demissão de milhões de trabalhadores, liquidando dezenas de projetos na área de energia, indústria naval, infraestrutura e defesa.
A agressão imperialista que o Brasil está sofrendo, que conta com a ativa participação de entreguistas e coveiros da democracia de dentro do país, pode se comparar às guerras empreendidas contra o Iraque e Líbia, as técnicas de desestabilização e desmonte do país são bastante semelhantes. Setores da burguesia nacional tomaram o Estado de assalto, literalmente. Por exemplo, em 2017 o banco Itaú, que apoiou o golpe, foi isentado de impostos relativos à fusão Itaú/Unibanco realizada em 2008, no valor de R$ 25 bilhões. Em pleno processo de recessão e numa crise fiscal dramática, o banco obteve uma isenção quase equivalente ao valor gasto com o Bolsa Família. Enquanto os governos pós-golpe entregaram dinheiro para bancos e multinacionais, usando como pretexto a crise e a falta de dinheiro, encaminham ao mesmo tempo, o maior ataque aos direitos sociais e trabalhistas registrados na história do Brasil.
O caso apontado, e de dezenas de outros ainda mais escandalosos, representam o pior tipo de corrupção, porque é consequência da captura, sem freios, do Estado pela elite do dinheiro, especialmente a elite financeira. O chamado Dinheiro, entre os blocos de interesse do golpe de 2016, é o mais poderoso por ter a capacidade de comprar todos os demais segmentos. Muitos reclamam dos recursos do Bolsa Família, fração diminuta do orçamento, direcionada para salvar quase 50 milhões de brasileiros da fome, mas acham normal esse tipo de medida que beneficia meia dúzia de magnatas que mal sabem onde fica o Brasil. Este tipo de corrupção, a mais selvagem de todas, não indigna a maioria das pessoas porque é naturalizada pela sociedade e grande mídia.
O preço do golpe de Estado contra a democracia no Brasil, do ponto de vista da população, é milhões de vezes mais alto do que o custo da corrupção, justificativa dos membros da Lava Jato para os graves crimes que cometeram, e que agora estão se comprovando. Quanto valem, por exemplo, para os trabalhadores, todos os artigos que liquidaram com a contrarreforma trabalhista aprovada em 2017? Quanto custa para o Brasil o fim da lei de Partilha e desmontagem da Petrobrás, que eram os passaportes do país para o desenvolvimento? Quanto custou a liquidação do setor de engenharia nacional, que concorria no mundo todo, e que, destruído, abriu espaços para os capitais norte-americanos? Qual o custo dos 7 milhões de empregos formais incinerados desde o golpe em decorrência da Lava Jato, operação montada pelos EUA? Quanto custou, em termos de soberania energética, a prisão do Vice-almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, principal responsável pela conquista da independência na tecnologia do ciclo de combustível, que colocou o Brasil em posição de destaque na matéria, no mundo?
Quanto irá custar, em termos de soberania nacional, o desmonte da Odebrecht, empresa responsável pela construção do submarino nuclear, e sua controlada, a Mecatron, responsável pela fabricação dos mísseis nacionais. Quanta custa à soberania nacional a colaboração entre os responsáveis pela Lava Jato e órgãos de investigação do Estado norte-americano, que permitiram (e permitem) o acesso do governo daquele país a informações sigilosas que são utilizadas para atacar e processar judicialmente a Petrobrás e outras empresas brasileiras? Quanto custará ao Brasil o repasse, ao Império do Norte, de petróleo, água, minerais e a Base de Alcântara para a instalação de bases militares? Quanto custará a destruição da Previdência Social para os 100 milhões de brasileiros que dela dependem, com o único objetivo, inconfessável, de abrir mercados para os bancos privados? Quanto custou para o Brasil a fraude das eleições de 2019, agora cada vez mais comprovada pelas denúncias do The Intercept?

[ARTIGO]: A saída para a crise no Brasil

Por José Álvaro de Lima Cardoso, economista do DIEESE

A economia nacional está atravessando uma das mais graves crises de sua história. Em relação à 2015, em 2019 o PIB é 5,1% inferior, os investimentos são menores em 23,4% e o consumo das famílias em 5,3%. Entre 2011 e 2018, tivemos um ritmo médio de crescimento de 0,58% ao ano e, tudo indica que essa será a pior década da história em termos de crescimento econômico, superando as décadas perdidas de 1980 e 1990.

Neste quadro de estagnação o desemprego segue nas alturas. A taxa de desemprego, segundo o IBGE, subiu para 12,7% no primeiro trimestre do ano, atingindo 13,4 milhões de brasileiros. Além da taxa de desemprego ser muito alta, 5,2 milhões de desempregados, quase 40% do total, procuram emprego há mais de 1 ano. Daquele total, 3,3 milhões de pessoas (25%), estão desocupadas há dois anos ou mais. Alguns estados apresentam taxas impressionantes, como Amapá (20,2%), Bahia (18,3%) e Acre (18%).

No outro extremo, estados com taxas bem inferiores, como Santa Catarina (7,2%), mas que apresentam grande elevação do indicador nos anos recentes, o que mostra o agravamento do problema. Só para termos ideia do drama, em 2014, quando o Brasil apresentou as menores taxas de desemprego da história, a taxa em Santa Catarina estava em 2,8%, uma situação de pleno emprego, na prática. Em relação a 2014, o crescimento da taxa de desemprego em Santa Catarina, em 2019, é de 157%.

Entre os jovens o desemprego é assustador. A taxa entre brasileiros que têm entre 18 a 24 anos ficou em 27,3% no primeiro trimestre, o dobro da taxa média nacional, de 12,7%. Podemos imaginar o que significa para um jovem trabalhador brasileiro, que possivelmente está batalhando para obter o seu primeiro emprego, encarar um mercado de trabalho onde mais de um em quatro trabalhadores não consegue colocação, e num ambiente no qual o pouco que existe de Estado social, e os direitos trabalhistas, estão sendo rapidamente desmontados.

O quadro do desemprego no país é decorrência da crise econômica, mas é principalmente o saldo acumulado nos três anos de política do golpe no Brasil (a própria gravidade da crise é fruto do golpe). O processo golpista conduziu o país, a uma crise financeira e econômica muito grave e a um horizonte econômico e social simplesmente devastador. O que estamos presenciando nos últimos anos é um desmonte do Estado jamais visto no país. Neste momento, as frações golpistas estão em feroz guerra interna, fator que agrava o quadro político e que, somado ao quadro econômico, torna muito difícil a permanência de Bolsonaro na presidência. Ademais, o agravamento da crise, e as dificuldades para aprovar a PEC de destruição da previdência no Congresso, vem corroendo a relativa unidade em relação ao programa econômico de guerra contra o povo (sob a condução de Paulo Guedes). Unidade que havia no início do governo, entre os grupos que tomaram o poder de assalto em 2016, mesmo não sendo Bolsonaro o candidato preferido desses segmentos.

Do ponto de vista da maioria da população, a fórmula neoliberal não funcionou em nenhum lugar do mundo onde foi implantada. O crescimento estagnou, o desemprego aumentou e o patrimônio público foi dilapidado (claro, do ponto de vista do capital a fórmula pode funcionar, pelo menos durante um certo tempo). A população brasileira, inclusive tem memória relativamente recente desse tipo de política, dos governos FHC (1995/2002). Boa parte do patrimônio brasileiro foi dilapido, através da queima de estatais a preço de banana, e a vida dos trabalhadores piorou muito com queda da renda e elevação dramática da taxa de desemprego. O que dizer da fórmula ultra neoliberal que o fundamentalista Paulo Guedes está implantando no Brasil, que pretende, por exemplo, vender todas as estatais brasileiras?

O ultra neoliberalismo de Guedes vai dar completamente errado, do ponto de vista dos interesses brasileiros, como se pode prever facilmente. Dentre outras razões porque o governo não tem proposta para nenhum dos grandes problemas nacionais. O “programa” de governo de Guedes é vender o patrimônio do país e destruir as estruturas de atendimento à população, como está empenhado em fazer com a Seguridade Social. Acredita que destruindo essas estruturas, fruto de décadas de luta dos trabalhadores, o crescimento irá retomar no país. Se der errado, não há problema, coloca-se a culpe nas “corporações” e no “populismo” do Congresso Nacional. Parece uma brincadeira. O problema é que Paulo Guedes não é chefe de um laboratório de testes econômicos, e sim ministro do Brasil, a oitava economia e uma das maiores populações do mundo. Se aguardamos que o projeto de Paulo Guedes fracasse – e é certo que acontecerá – o Brasil pode implodir social e economicamente.

A luta contra o governo Bolsonaro está nas ruas e é muito vigorosa, como no 15 de maio, quando presenciamos as manifestações mais massivas ocorridas no país, no mínimo desde 2014. A solução para os problemas da economia e da sociedade, como já aconteceu em outros momentos da história do Brasil, parece estar nas ruas, ou seja, no fortalecimento do movimento dos trabalhadores e da juventude contra a política de destruição do país que este governo está encaminhando.

[ARTIGO]: Brasil, novamente, à beira da recessão

(Por João Borges, comentarista da GloboNews. Trabalhou em ‘O Estado de S. Paulo’, ‘O Globo’ e Banco Central) 

A divulgação nesta terça-feira (14) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) dos dados sobre o desempenho do setor de serviços, apontando queda de 0,7%, acentua o temor de que a economia brasileira encolheu nos três primeiros meses do ano. O PIB do primeiro trimestre será divulgado no dia 30 pelo IBGE. Entre bancos e consultorias econômicas, cresce o número daqueles que projetam resultado negativo.

 

A ata do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada também nesta terça, praticamente sanciona o que já vem sendo dito entre economistas do setor privado, ao que dizer que:

 

“Os indicadores disponíveis sugerem probabilidade relevante de que o Produto Interno Bruto (PIB) tenha recuado ligeiramente no primeiro trimestre do ano, na comparação com o trimestre anterior, após considerados os padrões sazonais”.

 

Não é ainda a recessão, porque, tecnicamente, o critério estabelecido é o de que uma recessão se caracteriza quando ocorrem dois trimestres consecutivos de queda na atividade econômica.

 

Os dados preliminares de abril e maio também indicam que a economia não reage. Outro resultado negativo não está descartado, mas não é a hipótese mais provável, segundo analistas consultados pelo blog.

 

O resultado do primeiro trimestre foi fortemente afetado pela indústria, que apresentou queda de 2,2% no trimestre. Parte disso se explica pelo efeito Brumadinho, com a paralisação da produção de minério de ferro da Vale por causa do desastre na barragem na cidade mineira.

 

Apenas em parte, porque a situação geral da indústria é crítica. E o setor de setor serviços acumulou queda de 1,7% no trimestre. N o varejo alta modesta, de apenas 0,3%.

 

A pesquisa Focus divulgada pelo Banco Central na segunda-feira (13) registrou a 11ª semana consecutiva de revisão para baixo, projetando crescimento de de 1,45% este ano. Será?

 

Alguns bancos já estão prevendo crescimento em torno de 1%, repetindo 2018 e 2017, anos em que a economia avançou apenas 1,1%.

 

Aqui cabe ressaltar um dado importante. Por causa do resultado em torno de zero por cento de janeiro a junho, para que a economia cresça 1% este ano será preciso que haja forte reação no segundo semestre, com crescimento acima de 0,5% a cada trimestre.

 

Para o governo, a mudança do cenário econômico depende da aprovação da reforma da Previdência e outras que estão na agenda do ministro da Economia, Paulo Guedes.

[ARTIGO] Mulheres: ocupação dos espaços de poder e empoderamento

Artigo da Presidenta da CUT-SC e da Secretária da Mulher Trabalhadora reflete sobre a ocupação das mulheres nos espaços de poder, principalmente na política

8 de março é marcado em todo o mundo pelo Dia Internacional da Mulher, um dia para lembrar a luta e resistência das mulheres por direitos e para marcar as conquistas que já tivemos até aqui. Nós, mulheres, lutamos há séculos pela igualdade de gênero, pelo fim do machismo e das violências e para conquistarmos nosso espaço. Nunca foi fácil. Muitas morreram reivindicando mais direitos, mas a nossa luta nunca foi em vão.

Em muitos países conquistamos uma legislação que garante a participação das mulheres como candidatas no processo eleitoral. No entanto, ainda falta muito para as mulheres ocuparem, de fato, esse espaço de poder. Se do total dos candidatos na eleição 30% são mulheres, porque temos apenas 10% na Câmara de Deputados e somente 7,5% na Assembleia Legislativa de SC?

Além de vivermos em uma sociedade que não reconhece as mulheres como protagonistas nos cargos de poder, as próprias mulheres são educadas para obedecerem e não liderarem. Enquanto os homens foram incentivados a sonharem com cargos de chefia, as mulheres foram ensinadas a serem boas mães e donas do lar. Por isso, mesmo quando uma mulher alcança um cargo de liderança ela precisa diariamente se reafirmar e provar o quanto é capaz de estar naquela função, sem cometer erros. Mesmo que ela esteja em um cargo de maior responsabilidade, precisará estar empoderada o suficiente para lidar com o machismo, o preconceito e o desrespeito todos os dias.

Este é um ano de eleições, momento importante para colocarmos mulheres na disputa de cargos políticos, não apenas para cumprir a cota mínima de candidatas mulheres do partido, mas para, efetivamente, serem eleitas e se tornarem líderes na luta pelo direito das mulheres. Somente com mais mulheres no poder é que vamos conseguir acabar com a desigualdade de gênero e implementar políticas públicas que deem os direitos e o espaço que as mulheres merecem.

Além de lutarmos por mais conquistas, também temos que defender os direitos que já são nossos e que estão ameaçados por medidas do governo golpista. Um grande exemplo é a Reforma da Previdência, que prejudica principalmente nós, mulheres, que já sofremos com piores salários, as piores condições de trabalho e com a responsabilidade dos afazeres domésticos e de cuidar dos filhos. Se essa reforma for aprovada teremos que trabalhar, no mínimo, até os 62 anos de idade e termos 40 anos de contribuição para conseguirmos nossa aposentadoria.

Precisamos lutar também pela revogação da Reforma Trabalhista, que precariza as condições de trabalho e permite a terceirização e o trabalho intermitente. Nós teremos que trabalhar mais horas, recebendo menos. A reforma é tão prejudicial às mulheres que prevê a possibilidade de grávidas trabalharem em condições insalubres. Não podemos deixar que nossos direitos, conquistados após tanta luta, sejam retirados por um governo ilegítimo e machista.

É hora de nos organizamos para lutarmos em todos os espaços de poder em defesa das mulheres, da democracia e contra o Estado de exceção. Juntas somos mais fortes!

Anna Julia Rodrigues – Presidenta da CUT-SC

Sueli Silvia Adriano – Secretária da Mulher Trabalhadora

ARTIGO: Revitalizar as ferrovias

Após as autoridades decidirem priorizar, a partir da década de 1940, os investimentos na infraestrutura rodoviária, a malha ferroviária passou a não receber a mesma atenção a ela conferida anteriormente, sofreu percalços e não acompanhou o crescimento do País. Tal opção foi motivada principalmente pelo desejo de expandir a indústria de veículos automotores. Outros grandes centros seguiram caminho inverso, não cessaram a alocação de recursos no setor e viabilizaram o desenvolvimento mais econômico.
Decorridos quase 80 anos desde o início da adoção do rodoviarismo, as estradas de ferro só obtiveram alguns progressos depois das concessões à iniciativa privada no fim dos anos 90. Mas jamais se aproximaram da eficiência esperada. Com problemas que vão desde a queda na velocidade dos trens às carências no planejamento operacional, esse segmento de transporte não tem capacidade de escoar a produção e não corresponde às necessidades nacionais.A malha brasileira dispõe de aproximadamente 29 mil quilômetros de ferrovias, que respondem somente por cerca de menos de 25% do volume total de cargas transportadas. Depois das concessões, foram construídos mais 3,5 mil quilômetros. O tamanho da rede, contudo, permanece praticamente com a mesma proporção desde os anos 80, sobrecarregando as rodovias. Apesar de novos trechos terem sido construídos nesse período, outros foram desativados.

O estudo realizado pela ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) realçou a deterioração dos investimentos no setor, ao apontar que a velocidade dos trens das 12 concessionárias avaliadas chegou a recuar entre 5% até 76% em 2016 em relação a 2001, quando teve início esse tipo de levantamento. Das empresas que participaram da pesquisa, apenas as locomotivas e os vagões de uma registraram melhora no indicador.

Para explicar tal disparidade, especialistas apontam pelo menos duas causas basilares. Primeira, o aumento do tráfego, ocasionado pela evolução natural na demanda; a segunda, o fato de a malha nacional já ser centenária e ter sido construída numa época em que ainda era baixo o nível de urbanização.

Preocupado com os prejuízos que a infraestrutura deficitária pode provocar nos resultados da agropecuária, segmento que sustentou a recuperação do PIB (Produto Interno Bruto) em 2017, o governo promete priorizar o setor ferroviário no Programa de Parceria de Investimentos (PPI), anunciado no ano passado. A meta é realizar, em 2018, pelo menos dois leilões de ferrovias: Norte-Sul (entre Tocantins e São Paulo) e Ferrogrão (entre Mato Grosso e Pará). Analistas acreditam, todavia, que o cronograma deve ser modificado devido à campanha eleitoral. Avaliam eles que os investidores serão cautelosos diante do que pode acontecer durante a disputa e, mesmo depois, com o resultado.

A construção da Transnordestina, que ligará o Porto do Pecém, no Ceará, ao Porto de Suape, em Pernambuco, além do Piauí, é outro tronco essencial à criação do sistema ferroviário. Suas obras, no entanto, sofreram constantes e longas interrupções. Para viabilizar o empreendimento, o governo o incluiu entre outros 89 projetos apresentados a investidores estrangeiros para concessão.

O Brasil se ressente da falta de ferrovias em face dos aumento dos custos do transporte rodoviário. A revitalização do setor ferroviário é uma necessidade premente para o escoamento integral da produção agrícola, mas ainda está longe de ter solução adequada.

(Fonte: Diário do Nordeste, janeiro de 2018)